Silêncio de Donald Trump sobre a vitória de Lula contrasta com tradição diplomática e reflete revés para a Casa Branca
Ao contrário de pleitos anteriores, governo americano não se manifestou imediatamente após o anúncio oficial do TSE; analistas apontam frustração com a interrupção da onda conservadora na América Latina.
Donald Trump ainda não reconheceu publicamente vitória de Lula/ Andrew Harnik/Getty Images Por Redação / Portal Alagoas NTTV
26/10/2026 11h25 · Atualizado há instantes
A apuração do segundo turno das Eleições Gerais de 2026 consagrou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 51,79% dos votos válidos (cerca de 64 milhões de votos) contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL) (aproximadamente 59 milhões de votos). No entanto, o desfecho das urnas brasileiras foi acompanhado por uma reação incomum em Washington: até o início da manhã desta segunda-feira (26), a Casa Branca e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mantinham silêncio público sobre o resultado proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A postura destoa da rapidez observada em eleições passadas e da reação de dezenas de chefes de Estado ao redor do mundo — incluindo lideranças de direita na América do Sul —, que reconheceram e parabenizaram o presidente eleito logo após a confirmação oficial no domingo.
Ruptura de uma tradição histórica
O compasso de espera do governo norte-americano rompe um padrão de reconhecimento imediato cultivado nas últimas décadas:
Em 2022: Joe Biden parabenizou Lula pouco depois da totalização, enfatizando a realização de eleições livres e justas antes mesmo do pronunciamento de Jair Bolsonaro.
Em 2018: O próprio Donald Trump telefonou para felicitar Jair Bolsonaro ainda na noite de domingo da votação.
Em 2014 e 2002: Barack Obama cumprimentou Dilma Rousseff e George W. Bush telefonou para Lula em intervalos inferiores a 24 horas.
Especialistas em relações internacionais avaliam que a demora de Trump é significativa. Christopher Sabatini, pesquisador sênior para a América Latina da Chatham House, destacou que o gesto indica isolamento de Washington no cenário regional:
"Sim, é muito significativo. Ele deveria ter sido o primeiro. Também é significativo que todos os outros países estejam correndo para reconhecer o resultado. É um sinal claro para Flávio Bolsonaro e para a Casa Branca de que 'nós reconhecemos, e vocês, onde estão?'. Estão tentando encurralá-lo."
Frustração estratégica e geopolítica regional
Analistas apontam que o silêncio da Casa Branca reflete uma frustração política direta. Desde o início de seu novo mandato, Trump comemorou vitórias de governos conservadores e alinhados ideologicamente em nações como Peru, Chile e Colômbia. A eleição no Brasil representava o maior objetivo estratégico da administração republicana na região.
Além de receber parlamentares da família Bolsonaro em Washington e atender a demandas políticas — como a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas —, o governo americano esperava a adesão do Brasil à iniciativa do Escudo das Américas, coalizão de segurança voltada a combater cartéis e conter a expansão da influência chinesa na América Latina.
Segundo Anthony Pereira, diretor do Centro para Estudos Latino-Americanos da Universidade Tulane, o resultado altera cálculos estratégicos:
"Acho que a expectativa é de que o Brasil aderiria ao Escudo das Américas, estaria negociando a mineração crítica, seria um seguidor da linha do Trump [...]. O fato de que isso não aconteceu vai ser uma decepção para o governo."
Pragmatismo versus ideologia
Apesar do distanciamento inicial e da pressão de setores da diplomacia americana — como a ala liderada pelo secretário de Estado, Marco Rubio —, analistas apostam que o pragmatismo econômico prevalecerá no médio prazo. Gigantes empresariais com forte atuação em ambos os países têm interesses diretos na preservação de relações comerciais estáveis.
No discurso da vitória proferido em São Paulo, Lula defendeu a soberania nacional, citando Chico Buarque para afirmar que o Brasil não irá "falar grosso com a Bolívia e fino com os Estados Unidos", além de assegurar que o país "não aceita ser quintal de ninguém", mantendo abertas as portas para o diálogo institucional com a comunidade internacional.



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