Cúpula em Abu Dhabi: Ucrânia, Rússia e EUA sentam à mesa pela primeira vez em busca de cessar-fogo
Encontro histórico nos Emirados Árabes marca inflexão diplomática após quase quatro anos de guerra; impasse sobre territórios ocupados no leste ucraniano ainda trava acordo duradouro.
Arte Metrópoles/Gabriel Lucas Um novo e decisivo capítulo da guerra na Ucrânia começou a ser escrito na última semana. Pela primeira vez desde a invasão em larga escala, delegações de Kiev, Moscou e Washington participaram de uma mesa trilateral de negociações em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. O encontro sinaliza que, após quase 48 meses de combate, a via diplomática começa a ganhar fôlego frente à lógica puramente militar.
A ofensiva diplomática é liderada pelos Estados Unidos, que buscam um desfecho para o conflito. No entanto, o otimismo é contido: o processo esbarra na "linha vermelha" territorial. A Rússia ocupa hoje cerca de 20% do território ucraniano (Luhansk, Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia) e exige o reconhecimento formal dessas anexações.
Embora o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, tenha falado em um "impasse concentrado em apenas um ponto" durante o Fórum de Davos, as posições seguem distantes:
- Rússia: Exige que a Ucrânia abandone as reivindicações sobre as áreas anexadas em 2022. O Kremlin mantém uma postura rígida, afirmando que continuará os objetivos "no campo de batalha" sem concessões concretas.
- Ucrânia: O presidente Volodymyr Zelensky descarta reconhecer formalmente a perda de territórios, embora já admita consultar a população via referendo interno sobre possíveis concessões.
Analistas apontam que o novo formato de diálogo revela um desequilíbrio de forças. Segundo o professor Victor Missiato, a fragilidade econômica e militar da Ucrânia reduz seu poder de barganha. Além disso, Washington exerce pressão sobre Kiev para atender a interesses estratégicos próprios, como o restabelecimento de pontes econômicas com a Rússia.
Para o professor Alberto Moral, o modelo trilateral corre o risco de ser uma solução "imposta pelos mais fortes", onde Rússia e EUA definem termos que Kiev, como o elo mais fraco, teria dificuldade em recusar. Enquanto a diplomacia avança lentamente, Moscou continua enviando sinais militares, como patrulhas de bombardeiros no Mar Báltico, para reforçar sua posição de força na mesa de negociações.



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